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LIVROS
Editora Record/Nova Era, 1994
PREFÁCIO
São Francisco, arquétipo da integração ecológico-cósmica
S.Francisco não pertence somente ao cristianismo. Ele se transformou
num dos arquétipos referenciais do Ocidente, e hoje da humanidade, em sua busca
de uma nova aliança com a natureza. Com fina percepção sentia o laço de
fraternidade e de sororidade que nos une a todos os seres. Ternamente chama a
todos de irmãos e de irmãs. As coisas têm coração. Ele sentia seu pulsar. Por
isso nutria veneração e respeito face a cada ser, por mais insignificante que
fosse. Nas hortas as ervas daninhas devem ter o seu lugar. Do seu jeito, elas
também louvam o Criador que é um Pai bondoso com características de Mãe de
infinita ternura.
Os biógrafos do tempo, como os co-irmãos Celano e S.Boaventura,
testemunham o impacto que significou a emergência de tanta suavidade. Dizem que
com Francisco "se resgatou a inocência original", que ele é o homem novo que o
céu deu ao mundo" e que, finalmente, representa "o novo evangelista dos últimos
tempos". Efetivamente, face às demandas da nossa cultura ecológica mundial,
devemos reconhecer que nós somos velhos, ainda aferrados ao paradigma da
dominação e agressão da natureza, e que S.Francisco é verdadeiramente novo e
alternativo.
Num pergaminho conservado no convento do monte Alverne, lá onde recebeu em seu
corpo os sagrados estigmas, se lê um seu último adeus às criaturas, pois estava
prestes a morrer. Despede-se de frei Masseo, do irmão rochedo e do irmão
falcão. Por fim diz: "Io mi parto da voi com la persona, ma vi lascio il mio
cuore", quer dizer: "eu me aparto de vós como pessoa, mas vos deixo meu
coração". O coração de Francisco significa um estilo de vida, uma prática de
confraternização e um renovado encantamento do mundo. Este coração fez suscitar
histórias e estórias desde o século XIII até hoje, como forma de atualizar e de
suscitar nas pessoas o mesmo fascínio pela sinfonia do universo. Eram os "fioretti",
vale dizer, "as florezinhas" sobre o propósito de S.Francisco.
O encantador do presente livro de Tiago Santiago é prolongar estes "fioretti". E
o faz com elegância e graça. Nasce do coração de Francisco e reconduz ao mesmo
coração. Tem esse notável mérito, de despertar o Francisco e sua companheira
Clara que dormem dentro de cada um de nós. E acordados nos convidam a vivermos
com fraternura todas as nossas relações, para sermos de fato irmãos e irmãs
universais, das estrelas mais distantes e da lesma que penosamente atravessa
nosso caminho.
Leonardo Boff
Vale Encantado, Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1994
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